REGISTROS DE UMA VIAGEM À ITÁLIA E ÁUSTRIA

Plataforma na cidade de Lucca, na bela Toscana.


A minha intenção era escrever um relato real da viagem que fiz a esses dois países, mas ao começar, me vi inserindo pequenos contos que me vinham à cabeça e dando um tom literário à narrativa. Posso dizer que meus dedos me levaram a isso. Achei que a mistura poderia ficar interessante: trabalhando com  a realidade inserida nos fatos, como endereços de B&B, nos passeios realizados, nas visitas aos museus, nos traslados obrigatórios e a ficção que pude criar  em cima disso tudo.
Nessa linda viagem tive como companheira Maria Laura, amiga querida, companheira de horas de caminhada, e autora de várias fotos aqui inseridas.



MARIA ALICE MANSUR
Outubro de 2014


            Chego ao aeroporto internacional Tom Jobim atrasadíssima, não por minha culpa, mas sim por causa de um tiroteio na Maré que me deixa parada 2 horas e meia do pedágio na Rodovia Washington Luís, na raiz da Serra, até ao aeroporto, trajeto que normalmente se faz em poucos minutos.  Estou nervosa, maldigo esse transtorno, me pergunto por que não se faz obra de infraestrutura descente no país, que permita uma  outra via para escapar de fatos como esse que se tornaram, infelizmente, corriqueiros. O cidadão fica à mercê de bandidos, parado num congestionamento monumental e reza para que saia ileso.  Mas, como todos sabem, o Ser Supremo anda atarefadíssimo e apelos como esse, Ele nem considera, porque se tornaram  banais. Que se virem, é o que pensa, mas não diz.
            Faço o check-in meio esbaforida e me dirijo à sala de embarque. Tenho tempo de relaxar, tomo um café, e logo já estou andando nos fingers que levam ao avião. Quando me dou conta, voilà, estou dentro da aeroave.
            Já instalada, olho para o infinito. Ainda é dia e o azul do céu se estende para além do horizonte. As nuvens, bem abaixo da altitude do avião, formam desenhos variados. Quando menina achava que os anjinhos moravam em cima das nuvens, para uma criança seria formidável vê-los por lá, e poder acenar daqui de baixo.

            A mulher, ontem menina, se lembra com clareza. Era a primeira vez que sua mãe lhe falava de Deus, iniciando-a  nos mistérios da fé. Onde ele mora? Lá no céu, e sentado nas nuvens, sabe tudo que acontece aqui; quem é bom, quem é mau, quem obedece aos pais, quem não mente. Longe de lhe parecer uma ameaça para as suas traquinagens, embora o intuito da mãe fosse exatamente esse, o fato de Deus saber tudo que se passa aqui embaixo a fascinou. Sabe mesmo tudo? Sabe tudo, tudinho, e tem os anjinhos como informantes, auxiliares e companhia constante. Eles são pequenos, da sua altura, usam asas e fazem das nuvens seu meio de transporte. A menina não entendeu bem o fato dos anjinhos serem informantes, porém atenta a esta última frase, sua imaginação voou solta. Poxa, andar e saltar de nuvem em nuvem deve ser mil vezes melhor que bicicleta! Ela olhou para o céu intrigada. Mas cadê eles, mãe? Estão lá em cima, mas a gente não pode ver eles. E Deus, também não posso ver? A mãe sorriu, e respondeu rapidamente. Não precisa vê-lo, é só colocar a mãozinha no coração e chamar por ele, que ele te atende. Que mistério, pensou a menina, mas logo teve a atenção desviada para outra coisa. Era uma criança, e crianças não perdem tempo conjecturando.

                    
            Voar pode ser assustador para muitas pessoas, mas não para mim. Preparo-me um dia antes, com cuidado. Escolho uma roupa confortável, e coloco na bolsa tudo que me será útil durante o voo: o kindle, creminhos para o rosto, hidratante facial, e claro, dinheiro, óculos, passaporte e celular. Na mala vai o essencial, por isso é sempre leve. Se bem que nessa viagem extrapolei. Ela veio cheia de presentinhos, que vou procurar não comprar mais em viagens futuras. Não só ficou extremamente pesada, como fui obrigada a comprar mala extra de mão!
            Entrar na aeronave requer certo ritual, que cumpro com prazer. Cumprimento a tripulação e procuro o meu assento. Não sou dessas que empatam a entrada dos outros. A companhia é inglesa, recomendada nas redes sociais, e estava com um preço muito bom, mas me decepcionei com a distância exígua para esticar as pernas, e olhe que não sou alta, diria mesmo que sou bem baixinha, mignon,  como um dia um namorado me tachou. Ao meu lado um casal inglês, enorme. O rapaz fica literalmente espremido no seu assento, sem espaço para mover suas longas pernas, e sua companheira, que não lhe fica atrás no porte, se reclina para o seu lado, ficando em diagonal para poder encaixar as pernas de modo a ficar mais confortável. Duvido que a viagem de avião possa ser prazerosa para britânicos altos e de pernas longas.
            O avião se preparando para decolar passa-me pela cabeça um jingle:
            vai viajar?

            escolha a Varig
            a empresa cem por cento brasileira
            suas asas potentes
            te levarão de norte a sul
            de leste a oeste
            e sua tripulação simpática
            vai tornar tua viagem mais agradável    
            VARIG, VARIG, VARIG
            Saudades da Varig, o serviço de bordo perfeito,  tripulação competente, o orgulho de voar com uma companhia tão boa que nada devia as estrangeiras. Dou risada do meu jingle, da inspiração tão fora de hora, mas será que inspiração tem hora de acontecer?

            Poucos passageiros, viagem de média duração a mulher buscou em volta. Lá estava ele, um homem comum, que parecia tão entediado quanto ela. Mudou de lugar, acercando-se dele. Olharam-se, trocaram algumas palavras e movidos pela atração que logo se formou entre eles, foram juntos para o pequeno banheiro de bordo. Sentada na pia, num desconforto enorme, arriou as calcinhas, ele abriu a braguilha e seguindo o balanço do voo, balançaram-se também. Ela contava para as amigas que o orgasmo foi o melhor de sua vida, e ele gabava-se, também pros amigos, de ter comido a mulher mais linda que conheceu. Cá pra nós, ela estava longe de ser linda, assim como não teve orgasmo algum, mas, precisavam se gabar, senão não tem graça. Todo mundo tem uma história de sexo no avião, e eles queriam ter a deles, também.

            Depois de uma longa viagem (como o Brasil é longe da Europa), com conexão em Londres, chego exausta ao Lácio. O que atrapalha também é esse fuso horário, deixa a gente tão cansada, reflito, enquanto decido se pego o trem da Trenitalia direto à Stazzione Termini ou o ônibus, que também faz o mesmo trajeto, demorando um pouco mais.
            Tenho uma relação de amor com Roma desde muito pequena. A primeira vez que desembarquei em terras romanas tinha 10 anos. Minha mãe gostava de tudo que se relacionasse ao país: da música à comida, passando pelos atores Vittorio Gassman e Marcello Mastroianni, e, sobretudo das histórias dos imperadores romanos, que fazia questão de me contar,  com um entusiasmo tal, que eu queria saber sempre mais. Júlio César, Marco Antonio me fascinavam.
            Lembro-me perfeitamente do impacto que tive ao me deparar com as esculturas monumentais e com a riqueza do interior das igrejas. Para não me cansar com tanta informação cultural, meus pais ficavam atentos ao meu fastio. Se me mostrava entediada com o banho de cultura, logo saíamos para tomar sorvete, que na Itália são simplesmente espetaculares. Passeávamos pelos parques e muito frequentemente  íamos à praia de Ostia,  distante uma hora de Roma, cujo mar quente e calmo com suas areias escuras, era um bálsamo para os dias quentes do verão, onde a cidade ferve, com temperaturas altas.
            Depois de alguns dias em Roma, partíamos para Pompeia, uma civilização que encantava meu pai. Enquanto mamãe me contava a história dos Césares, meu pai me instruía sobre Pompeia, a cidade devastada pelo Vesúvio. Quando me deparei com as ruínas, me assustei muito e quis sair dali rápido. Achava que ia ver alma penada, e por mais que meus pais me acalmassem, o máximo que aguentei foram quinze minutos de muito sufoco.
            A segunda viagem para Roma, já tinha 15 anos e bastante inteirada da história do império romano e da arte renascentista desfrutei culturalmente bem mais. Voltamos aos museus, que já conhecíamos, e visitamos mais alguns e meus pais aprofundaram a visita com detalhes que ficaram fora da última vez. Voltamos à Pompeia e dessa vez amei o lugar e fiz muitas perguntas que meu pai adorou responder.
             Próxima parada foi Florença. Muita coisa para visitar, escolhemos o Uffizi e o Palácio Pitti, para dissecá-los sem pressa. Mantinha meus olhos arregalados para absorver tudo que via. Para não nos perder, nos guiávamos pelo Duomo, que é bem central, e bem visível com sua cúpula verde claro.  A cidade elegante e bonita também me seduziu. É diferente de Roma, tem um quê de especial, impossível de definir. É olhar para ela e entender, acho eu.  Quero viver aqui, casar com italiano e ter dois filhos. Finalizamos  a viagem em Paris. Meus pais achavam importante que eu conhecesse a Mona Lisa no Louvre e visse a torre Eiffel.
            Dizia para a minha mãe: tudo aqui é tão diferente do Brasil. O Brasil é um país jovem e a Europa é um continente antigo, respondia minha mãe. Lembra-se da história do Império Romano? Existia desde antes de Cristo. E o nosso país? Descoberto em 1500, quando tudo aqui efervescia. Pois então, dê um desconto, um dia chegaremos a esse patamar. E eu ansiava para que esse dia chegasse logo.

        
           
            A terceira viagem para a Itália aconteceu quando completei 20 anos, acabava de me formar em jornalismo e fui com um grupo de amigas da faculdade para um tour em várias cidades. Roma foi uma delas, e dessa vez conheci um belo siciliano, Piero, por quem me apaixonei.
            Voltei três anos depois para rever Piero. Mas, o tempo nos modificara e não tínhamos mais nada em comum, até o sexo arrefecera. Ele continuava lindo, mas estacionado numa vida pacata e sem graça, enquanto eu, aventureira e cheia de energia queria desbravar o mundo.

            Eles eram gêmeos, mas bem diferentes um do outro. Roberto e Afonso. Tinham 12 anos e ela apenas seis. Quando sabia que eles iam à sua casa, vestia o vestido mais bonito e trançava o cabelo finalizando com um belo laço,  combinando com a cor do vestido. Queria ficar bonita para eles.
            Roberto gostava de Dulce, a melhor amiga da menina, mas a menina não sabia, nem Dulce desconfiava.
            As meninas brincavam de amarelinha quando os dois meninos chegaram. A menina os viu, no momento em que se  abaixava para pegar a casca de banana e pular uma casa. Precocemente sedutora, abaixou bem a coluna, para que a calcinha nova de moranguinhos silvestres aparecesse e eles a vissem - sabe-se lá o quê passava por sua cabeça.  Esforço em vão, ambos olhavam para Dulce, de olhos azuis e cabelos encaracolados, tão linda e tão etérea.

            E agora, volto novamente a Roma, numa viagem minuciosamente planejada que também inclui a Áustria.  Estou eufórica, estar nessa cidade apaixonante que não visito há mais de três décadas e tal, mexe com as minhas emoções e lembranças. Escolhi pelo site de hotéis,  um B&B pertinho da Estação, na Via Giolitti, nº 119. Dá para ir a pé.
            Chove na capital romana. Depois de pegar minha bagagem, dirijo-me ao café do aeroporto para tomar um bom cappuccino. Sorvo o café devagar, frio e sem gosto e dou nota máxima aos da Confeitaria Colombo e Kopenhagen, verdadeiras craques no quesito. Deixo a bebida quase que inteira na xícara e compro o tíquete do trem. Adoro andar de trem e não entendo como é que não se estimula o transporte ferroviário no Brasil. Seria maravilhoso visitar a região serrana do Estado do Rio de Janeiro de trem, ao invés de carro e aguentar engarrafamentos homéricos na descida da Serra. Ou cruzar o país, como é tão comum na Europa. Já houve época em que se faziam esses trajetos ferroviários, mas a imbecilidade que rege a cabeça das autoridades brasileiras acabou com as ferrovias pensando que o Brasil se engrandeceria se fosse movido a gasolina e grandes estradas.  E com certeza, houve enriquecimento por trás dos panos para muita gente com essa troca imbecil, como também é de praxe no país. Hoje o transporte de cargas pelas rodovias tem um custo altíssimo, perde-se dinheiro e tempo nos deslocamentos e o povo que habita as metrópoles vive estressado. É indigno esse descaso que as autoridades mostram com a falta de interesse para com a mobilidade urbana.  Nada sai do papel, e quando sai é pingado.  Mas não quero pensar nisso agora, assuntos que tanto me aborrecem.
            Decide-se no Brasil o segundo turno das eleições de 2014, com uma baixaria nunca vista antes,  com os candidatos se fartando de mentir, inventando intrigas e mostrando falta de educação sem limites. Pobre país. Cada vez se distanciando do civilizado. Alegro-me de estar bem distante. Nenhum dos candidatos me representa, nenhum tem projeto decente para a educação, saúde ou transporte público. Falam apenas de economia, agronegócio, direitos adquiridos do trabalhador (cujas leis merecem, sim, uma baita revisão), portanto, não quero nem saber.

            Chegou à Nova York tarde da noite e pegou um taxi.  Deu o endereço ao taxista e logo chegou ao endereço indicado. Teve a intuição de pedir para ele esperar. O que se revelou prudente, pois não tinha ninguém em casa. E agora, fazer o quê? Pediu que ele lhe levasse a algum hotel, nas proximidades. Não esperou que o homem, de aparência latina quisesse estuprá-la dentro do taxi. Tomada de desespero, abre a porta e cai ao chão. Em frente dela um hotel. Entra desesperada, e  na recepção pergunta se tem vaga. Não tinha, mas o funcionário, vendo o estado emocional em que  se encontrava, pediu-lhe que aguardasse que ele iria providenciar um quarto num hotel próximo. Mas antes, foi até a rua, viu o taxi parado e mandou- o ir embora. Anotou a placa e informou a polícia. Disso ela nunca soube, mas esse fato lamentável não interferiu na viagem. Amou New York, e nunca se esqueceu do belo negro que a ajudou.

            Chego rápido ao Dream Station situado em frente à Estação Terminal. É só atravessar a rua. É um prédio com residências também. Um aviso na porta, que é pesada e antiga, pede para não batê-la, em consideração aos que lá moram. O B&B é super bonitinho  pintado com cores fortes e pouco convencionais, ao gosto da mulher do hoteleiro. Ele é bem simpático e me mostrou o quarto, em tons de lilás e rosa, bem funcional com pleno aproveitamento do espaço. A cozinha se mantém aberta em tempo integral, podendo, portanto, ser usada a qualquer hora. E a arrumadeira é uma negra linda, simpática, enorme, chamada Esta. Gostei dela imediatamente.
            Cansada da longa viagem, deixo a mala e desço para comer alguma coisa. Pretendo dormir cedo para enfrentar os passeios que quero fazer, e que não são poucos. Quero aproveitar o máximo que puder, nesses três dias, antes de partir para a Costa Amalfitana. O quarteirão onde estou hospedada, talvez pela proximidade com a Estação Terminal, abriga uma população de variadas etnias: negros, asiáticos que não só expõem suas mercadorias no chão ou em quiosques, como se reúnem em grupos e ficam bebendo e jogando conversa fora. Sinto medo, perdi a intimidade com Roma, e nesses anos todos, a cidade mudou muito, naturalmente. Não havia essa população de imigrantes pobres vendendo seus badulaques pelas calçadas, tem muito mais gente, muito turista, a cidade está abarrotada.  Fico atenta, estou em território desconhecido, mas meus olhos, habituados ao perigo, me dizem que não corro risco. Entro num restaurante asiático que está com um bom número de pessoas. Fato importante, Se o restaurante estiver cheio ou quase, a comida é boa, caso contrário, nem cogite entrar, palavras sábias de meu amigo bósnio, Emir Bosnic, viajante contumaz, conhecedor do mundo. E realmente acerto na escolha: a sopa é ótima e o vinho melhor ainda. Relaxada e feliz por estar nessa cidade adorável volto para o hotel. Durmo embalada em suaves lembranças.

            O homem não consegue tirar-lhe os olhos de cima. Encantado com aquela beleza morena vigia-lhe todos os movimentos: a maneira que ela vira o rosto para falar com a amiga, a risada cativante, os olhos atentos a qualquer movimento ao redor, e o cabelo... ah, o cabelo, escuro, cheio, que balança de um lado para o outro quando ela mexe a cabeça. Fica por perto, movimenta-se cauteloso por entre as mesas, sem perder o foco na moça. Espera uma oportunidade, quem sabe, de se aproximar dela. Seria casada? Teria um namorado? Nada disso é importante. Ouve quando a chamam: Beatriz. A um sinal de alguém na mesma mesa onde se senta Beatriz, aproxima-se com o coração aos pulos. Oportunidade única de chegar perto dela, de sentir o perfume floral que usa, e de ver a curva de seus seios no decote ousado da blusa que veste. Transtornado de emoção, dá meia volta para voltar e  entregar a conta ao parceiro de mesa de Beatriz. Ao vê-la sair, suspira convicto: como é bela Beatriz.

             Depois de um café simples, mas diversificado, olho pela janela e me certifico que está quente. Roupas leves, o mapa da cidade, óculos escuros e saio porta afora. A localização do B&B não pode ser melhor. Pego a reta da Via Cavour e vou parar no Coliseu, com o Monte Palatino, Fórum Romano, o Arco de Constantino, e o Circo Máximo, um do lado do outro. Meus monumentos favoritos. É relativamente cedo e as grandes filas ainda não se formaram.
            Enquanto ando, olho tudo, para cima, para os lados. A Igreja Santa Maria Maggiore fica no caminho para esses monumentos. Aproveito e entro. Vasculho com prazer seu interior, que como todas é riquíssima com afrescos belíssimos.
             A arquitetura romana é influenciada pela grega, e certas características que se encontram em Roma também são encontradas em outras cidades europeias. Todas têm seus aquedutos, basílicas, domus, arcos do triunfo e pantenons. E é muito forte a influência etrusca nas abóbadas e no uso do arco. Um povo que ninguém sabe muito bem de onde veio, é o que me dizem os próprios italianos. Andar pelas ruas romanas olhando seus prédios largos e baixos com avenidas largas sem esse engarrafamento constante nas grandes cidades brasileiras me faz pensar. Acho que ouvi em algum lugar que as ruas devem ser da largura de seus prédios para um melhor escoamento do trânsito. Se isso é verdade ou não, vivenciei isso em Roma, Florença e Viena, e o trânsito, embora forte em algumas horas, escoava bem, de fato.
            O Coliseu, o maior símbolo do Império Romano, sempre me causou forte impacto. De início, o lugar era usado como entretenimento popular servindo de palco para muitas manifestações, procissões religiosas e inclusive, batalhas navais, quando então cobriam a grande arena com água. Ali também se matou muita gente, é sabido das lutas dos gladiadores romanos contra leões, embora seja discutível a matança de cristãos no local. É realmente colossal, daí o nome, impactante, com suas ruínas grandiosas.
 A escultura de Nero, à entrada do monumento é magnífica. A arquitetura é impressionante. Tudo nesta cidade é extraordinário,  pudera, foi o berço da civilização, não poderia ser diferente. Faço um paralelo rápido com o Brasil, com arenas de futebol desabando, pontes, etc. enquanto que em 2014 em Roma, a história do Império Romano está toda lá, em ruínas, é verdade, mas com uma engenharia de estrutura extraordinária, visível, que faz inveja a qualquer obra brasileira. Sabemos todos que o mercado brasileiro é fechado por lei para empresas estrangeiras de construção, e paga-se um preço alto por isso: desabam um bom número de obras em construções. Mas, parece que isso vai mudar, esperamos.
            Como mudou o entorno desses monumentos! Parava o meu Fiat alugado na grande avenida, sem grade e entrava. Poucas pessoas visitando, eu ficava praticamente sozinha naquela imensidão, imaginando lutas, leões e gladiadores. Hoje a fila é enorme, e no térreo construíram banheiros, o que não havia em tempos idos. Mas é fascinante estar ali. Pois é, dirigia em Roma, hoje nem me atrevo. O trânsito é confuso, e caótico, todavia a impressão que passa é que nesse caos todos se entendem.
            Roma está abarrotada de turistas, um sem número de gente de todos os tipos e tamanhos. Os de olhinhos puxados predominam, para onde se olha há sempre orientais por perto. É bonito de se ver, somos tantos e tão diversos neste nosso planeta tão massacrado ainda que tão belo. O turismo é ordeiro, estou atenta a minha  bolsa, não sinto perigo à vista. Com tristeza faço o paralelo com o meu país: tantos turistas assim, tão desavisados seriam iscas fáceis para os pivetes cariocas. A polícia aparece para inibir o comércio ambulante dos africanos e dos bengalis, sem armas e sem truculência, nada que se pareça aos seus pares cariocas.  Porém, quando chove, essa turma surge do nada ao primeiro pingo. De onde vêm é uma incógnita. Apresentam seus guarda-chuvas fuleiros e capas de plástico, made in China, e saem correndo quando avistam os carabineri. É tudo a mesma coisa, aqui e lá.
            Chama-me a atenção uma mendiga,  bem nas escadarias que descem para o Coliseu, ajoelhada, com o rosto praticamente no chão, entre os braços, naquela posição de devoto da yoga, sabe qual é? A mulher fica horas nessa posição, não sei como aguenta. Não vi ninguém dando esmola.
            Ao sair do Coliseu, passo obrigatoriamente pelo Arco de Constantino, que me parece diferente agora, com tanta gente em volta perde um pouco da sua imponência,  e subo a rua pela esquerda para chegar ao Monte Palatino, uma das sete famosas colinas de Roma, e onde viviam os imperadores romanos. É um monumento alto, cerca de 70 metros, e nas encostas foram construídos o Fórum Romano e o Circo Máximo, que hoje não tem muita graça, mas que na época gloriosa do império era usado para competição de quadrigas. Algumas pessoas utilizam o local para correr.
             Do alto do Monte, me debruço e contemplo séculos de história.

            Piero tira a foto dela sentada numa das ruínas do Forum Romano. Ninguém por perto. Depois da foto, ele vem sedento para um beijo, e os dois se desequilibram e vão ao chão. Tantas risadas, tanto amor.

            Observo os turistas, todos com pau de selfie, o importante é o registro da foto; o registro do olho, do coração aberto a tantas maravilhas é coisa do passado, de outras gerações. O importante é sair bem na foto.

            A chuva desaba. A mulher corre para o café mais próximo cobrindo a cabeça com um lenço que está na bolsa. A temperatura cai um pouco e ela sente frio. Os pés estão molhados e ela, após uma sucessão de espirros, pede um café forte para espantar os próximos. O homem, no balcão, passa a mão no rosto da namorada e a mulher, que  os observa, consegue intuir o que ele diz. Estão enamorados e a magia desse amor lhe contagia. Sente-se bem e feliz por ver a delicadeza do sentimento expresso de maneira tão suave, e isso a faz recordar, um dia, o mesmo gesto de um  italiano enamorado. Faz tanto tempo, e o coração se aperta na saudade.

            Estou com fome, meu estômago ronca. Entro no primeiro restaurante que avisto e tenho sorte. A comida é excelente, o vinho melhor ainda e o garçom brasileiro de Londrina, no Paraná. Há cinco anos na Itália, Jorge nem pensa em voltar ao Brasil. Degusto meu prato mediterrâneo, com fervorosa devoção. Como é bom não cozinhar, penso ao levar a primeira garfada à boca. Permaneço no restaurante por um bom tempo. Fico atenta aos sons e as conversas. Não para bisbilhotar, mas para sentir mesmo o som do país, a melodia das palavras. Peço um café acompanhado de uma fatia de tiramisú, a sobremesa italiana famosa. Delícia!!!! Embora começa a implicar com o café fortíssimo que me dá azia. Depois, descubro que posso pedir café de cevada ou descafeinado, que são deliciosos.
            Depois do almoço,  vou para a Piazza Navona.  Quero rever a Fontana di Trevi- Fellini, Mastroianni, Eckberg, La Dolce Vita – todos mortos, mas o filme é eterno e inesquecível. Quem não o viu? O genial Fellini abarca várias gerações, eu mesma vi o filme em cinemateca. Era um dos prediletos de mamãe. Pego o metrô e me arrependo amargamente. Uma multidão, de estrangeiros e locais, todos se espremendo para entrar. Eu não entro,  espero o próximo, o próximo e finalmente consigo entrar com calma e sem correria. Viagem tranquila, e uma certeza: enquanto estiver em Roma não pego o metrô. Sinto falta do meu carro.
            Em manutenção, a Fontana di Trevi sem água parece bizarra. Incentivada por Piero, joguei tantas moedas em suas águas, para me garantir diversas voltas à cidade. Parece que deu certo.
            A prefeitura local periodicamente faz a manutenção dos monumentos romanos. Uma quantidade absurda de gente me distrai. Difícil o turismo em Roma. Olho para a base do monumento, tão belo, um concreto tão poderoso que só desmorona se houver um terremoto. Fotografo as esculturas com seus pênis minúsculos. Os artistas da época idealizavam a figura humana (realmente as esculturas são extraordinárias) fazendo o melhor que podiam, mas por razões estéticas esculpiam os pênis pequenos. Ah, a arte italiana, tão diferente esteticamente do gosto das mulheres em geral!!!
            Dei-me conta que até agora não vi um cachorro de rua ou mesmo um gato. Vejo cachorros, de todos os tipos, sempre na coleira e em todos os lugares. Os bichos andam de trem, de avião, vão aos restaurantes com seus donos e se comportam melhor do que muitos bípedes. Gosto muito disso. Dá para comparar com o Rio de Janeiro? Não dá. E acho que  as autoridades brasileiras não dão a mínima para os de quatro patas, e, diga-se de passagem, nem para os de duas. As secretarias de defesa do animal são precárias, para inglês ver. Cabides de emprego para empregar os coleguinhas de partido.

            Moleque, rei de Botafogo, nobre em quatro patas com juba de leão amarelada com riscas pretas. Altivo e elegante liderava uma matilha de vira-latas simpáticos que rodavam por nosso quadrilátero urbano. Nunca o vi latir ou brigar com outro cachorro. Um líder de primeira que se impunha pela atitude. Comportava-se com discrição nos bares onde ganhava comida. Sentava-se do lado de fora, com as patas dianteiras cruzadas e observava o movimento da rua. Não tinha pressa. Esperava ser servido. Na minha fantasia, queria-o eterno. Mas vi seus olhos perderem o brilho e um dia pressenti a chegada de sua morte.
            Viveu muito esse rei sem cetro, sua presença impregnada em cada pedra portuguesa por onde pisava majestoso.

            Nas escadarias da Piazza de Spagna encontro um grupo de brasileiros, do sul do país, totalmente perdido. Dois rapazes e três moças. Pedem-me informação achando que eu era nativa. Dou risada, brasileiro pode ser qualquer coisa, viva a diversidade!  Surge entre nós uma simpatia mútua e já engatamos um jantar no Trastevere, um bairro muito elegante, cheio de gente bonita, bons restaurantes e lugares para ouvir boa música e comer melhor ainda.
            Quando voltar a Roma é no Trastevere que vou me hospedar.
            O Castelo de Santo Ângelo é um monumento imponente, aliás, o que não é imponente e magnífico em Roma? Construído em 123 D.C, abriga um museu em suas dependências, que  nunca consegui visitar. Piero passava por ele todas as vezes que íamos para a casa dele, era caminho obrigatório. Apontava para o castelo, e me fazia repetir: Castel  Sant’ Angelo. E eu ria e ria, vou visitá-lo amanhã e nunca ia. Olho-o e mais uma vez não entro para visitá-lo, mas digo para mim mesma: Castel Sant’ Angelo olha eu aqui, desta vez sem Piero, mais uma vez sem tempo para visitá-lo. Da próxima, prometo.

            Seu irmão morava em Roma e quando ele soube que ela ia para lá, deu-lhe o telefone, alguns presentes a ser entregues à sua família e ainda recomendou: meu irmão é próximo de sua idade, ele vai gostar de te conhecer e vai te mostrar Roma.  E foi isso que aconteceu.
            Surpreendeu-se com a beleza do siciliano: magro, estatura mediana, cabeça perfeita, coberta por uma cortina de cabelos negros, lisos, pelo ombro, pele azeitonada, e olhos esverdeados, parecia saído da tela do cinema. Mafioso, quem sabe? A imaginação ia longe. Ficou encantada com ele, e ele com ela. Ele recebeu os presentes do irmão, quis saber se ele era feliz no Brasil, e ela esmerou-se nas respostas, exibindo-se um pouco. Entendiam-se misturando várias línguas, os gestos eloquentes a cada dúvida surgida. Enamoraram-se, e foi com ele que a mulher conheceu a Roma do dia-a-dia.

            Preencho meus poucos dias em Roma  para matar as saudades que sempre sinto desta cidade. Como gosto disso aqui.
            No último dia, vou  às Termas de Caracala, um templo magnífico dedicado aos banhos públicos, onde sempre ia com Piero. Gostava das ruínas e tentava imaginar a vida naquela época.  Deitávamos na grama dos jardins, namorávamos trocando juras de amor temporário (enquanto estivéssemos juntos não havia mais ninguém entre nós) e combinávamos o próximo encontro. Bebíamos vinho e comíamos sanduiches com queijo pecorino e presunto de Parma.
            Não há muita gente. É cedo ainda. Tenho as Termas para mim, praticamente. Passeio pelas ruínas, sento-me nos bancos do jardim e mais uma vez me perco nas lembranças.
            No dia seguinte parto para a Costa Amalfitana. Não conheço esta parte da Itália, a não ser por Pompeia, e estou excitada com a perspectiva.
            Pego o trem da Trenitalia até Nápoles e de lá o detonado trem Circumvesuviano até Pompeia. Na banca de jornal compro uma brochura da Bonechi  sobre a cidade e leio durante o percurso. Minha leitura é interrompida com a chegada do fiscal. Pede o bilhete para mim e para o africano que está sentado à minha frente. Mostro o meu e ele também o seu, porém o bilhete que apresenta parece estar vencido. O fiscal interpela o rapaz que se exalta, tentando convencer o homem que está com o bilhete válido.  Entendo pouco o que diz, e logo o rapaz é retirado do trem. Por um segundo tive medo. Penso no terror que seria essa cena no Rio ou São Paulo. Com certeza uma faca sairia de algum lugar e o fiscal seria morto.
            A viagem é um pouco cansativa, o desconforto é grande e torço para chegar logo.
            Lugar importante de passagem entre o norte e ao sul e localizada entre o mar e os vales Pompeia tornou-se um importante polo industrial e agrícola na Idade Média. O primeiro grande desastre ocorreu em 62 a.C. e a cidade foi reduzida a escombros.Todavia, seus habitantes mostrando tenacidade inigualável, reconstruíram-na e reativaram seu comércio. Todavia, em 79 a.C. deu-se a grande tragédia. O Vesúvio adormecido há séculos, despertou de seu sono letárgico e seus gazes tóxicos se espalharam pelas cidades vizinhas.  Pompeia, a mais próxima, foi simplesmente devastada. A cidade ficou coberta de cinzas, ninguém sobreviveu. Ficou esquecida por quase dois mil anos. Era um lugar estigmatizado, as pessoas tinham medo em morar lá. Hoje é um ponto turístico importante, a cidade é linda, os habitantes simpáticos, e de qualquer ponto se avista bastante bem o Vesúvio- por enquanto dormindo, sabe-se lá até quando.
            O primeiro estresse, e único, dá-se quando salto na estação errada. Li Pompeii Scavi, crente que é a parada certa, e quando dou por mim fico sem saber para que lado ir.  Olho para os lados, tentando me situar. Sei que estou perto do Certe Notti, o B&B que reservei, mas, pra que lado? Peço informação a um taxista que cobra uma fortuna para levar-me ao ponto desejado. Indignada, porque sei que não estou longe, sussurro uns palavrões em português, e constato, com tristeza, o que deve passar o turista estrangeiro em terras caboclas. Faço o caminho a pé, recuso-me a entrar nesse jogo sujo onde o turista é sempre explorado. Italiano, brasileiro, tudo igual.
            Yone é uma italiana bonita e simpática que me recebe com uma simpatia desconcertante. A seu lado, o retriever Romeu, doce e calmo. Aperta-me as saudades de meus dois cachorros, Denzel e Jessie May, será que estão bem? Minha irmã jurou que nada faltaria a eles, que eu fosse descansada e curtisse a viagem.
            Outro belo acerto: Yone e Antonio são simpaticíssimos, o quarto é confortável, o chuveiro ótimo, a roupa de cama é trocada todos os dias e o café da manhã bem gostoso.
            Estar em Pompeia é voltar num tempo muito especial. É preciso mais dias para esmiuçar bem o local como quero, e só tenho três, mas esmero-me para não perder um minuto. Leio num cartaz em cima da bilheteria de uma das portas que dão entrada as ruínas, que hoje existe uma sociedade da União Europeia com o Japão para darem continuidade a escavação e manutenção do precioso espaço. A administração anterior, corrupta, embolsava o dinheiro e com isso as ruínas abandonadas e sem manutenção adequada corriam sério risco de desabarem. Corrupção italiana, corrupção brasileira, corrupção everywhere, que coisa maligna! Europeus e japoneses têm desconto nos bilhetes.
            São sete as portas que dão para as Scavi, e sempre entro pela Porta Marina, não me pergunte por quê.
            Como mudou esse lugarzinho querido! Há lugares em que os afrescos foram restaurados e pode-se realmente apreciar como era bela a pintura da época. O que nunca tinha aparecido nas visitas anteriores. A turma está trabalhando legal. Encanto-me com a Casa dos Vetti, bastante restaurada, quase perfeita e com o afresco de Príapo, o deus da fertilidade com seu pênis gigantesco e motivo de risos á socapa das senhorinhas que por lá passam. Coitados dos homens se tivessem que carregar um pênis daquele tamanho!! Admiro a beleza da imagem e das que se seguem. Há de se louvar o trabalho dos arqueólogos.

           
 O afresco de Cipariso é lindo e também está nesta Casa que parece que foi bem importante: desesperada por ter matado sem querer o seu cervo, ela roga a Apolo que lhe permita chorar eternamente a perda do seu animal tão querido – ela foi eternizada com ele sentado ao lado dela, magnífico.

            Os afrescos reproduzem cenas mitológicas e as cores usadas, ainda que desbotadas por tantos séculos e tantas tragédias,  são bem fortes. Gosto disso, adoro paredes coloridas, minha casa é assim.

           A Casa dos Amores Dourados, situada à direita da Casa dos Vetti também sofreu um ótimo restauro e pode ser bem apreciada. Como meus pais ficariam felizes se vissem Pompeia hoje, e acredito que daqui a 50 anos estará quase perfeita, como teria sido um dia, antes das lavas do Vesúvio.
            Os implúvios são pequenas piscinas construídas dentro das casas para refrigerar os ambientes. Todas têm e são de diversos tamanhos. Ótima solução para os dias quentes. Poderia se adotar no verão tórrido do Brasil, uma economia e tanto em razão da alta da tarifa de luz que vai atingir todos os brasileiros, no ano que vem. Essa gente sabia das coisas.
            Examino a Casa do Poeta Trágico enquanto leio a informação quando eles se aproximam. Não distingo a língua, mas também não estou interessada. Um deles, um homem alto, magro e grisalho me observa. Pelo canto do olho vejo que ele fala alguma coisa com o amigo e se aproxima de mim. Como todo europeu, me pede licença para me dirigir a palavra e me pergunta sobre a ruína. Não estava afim dessa “intervenção”, porém  lhe satisfaço a curiosidade. O nome me deixou intrigada, apenas isso.
Ao saber que sou brasileira, desmancha-se em elogios ao país, embora tenha sido esfaqueado em Fortaleza. Fala isso rindo muito e mostra a cicatriz e o amigo, ao lado, que o salvou das garras do bandido cearense. Desejo morrer de tanta vergonha. Desculpo-me pelo fato e por um momento não sei se quero continuar conversando com o húngaro esfaqueado em solo pátrio. Mas, ele é muito simpático, quer voltar ao país, apesar de tudo, e espera reencontrar-me, quem sabe? Trocamos e-mails e seguimos nossos caminhos.
            Apenas em Pompeia vejo cachorros soltos, vivendo entre as ruínas. Bonitos, bem alimentados, estão ali a vivenciar que desde sempre eles seguem os humanos.
            O esfaqueamento do húngaro me deixa devastada e reflexiva sobre a violência escrachada existente no Brasil, de norte a sul, leste a oeste.
            Estou viajando sozinha e não me sinto ameaçada, enquanto que no Brasil turistas são esfaqueados, são roubados, e, no caso específico de Joseph, ainda querem voltar? Antes de viajar, li que um jornalista canadense que passou pela experiência do Boa Noite Cinderela, pediu transferência imediatamente depois do terror sofrido. Deixa claro que vai divulgar o que sofreu no Brasil, e mais, não recomenda o  Rio de Janeiro como destino turístico. E quantos brasileiros já passaram pela mesma situação e ficou por isso mesmo?

            Seu hotel era próximo do rio Danúbio. Era começo da noite e algumas pessoas fumavam e conversavam na pequena praça que ela avistava da janela. Sem sono, vestiu-se e partiu para lá, quem sabe encontrava algum patrício, os brasileiros hoje estão em toda a parte!
            Levou um susto quando ele lhe ofereceu uma rosa e um convite para dançar a valsa. Ali mesmo, à margem do Danúbio. Ah Strauss, não vou fazer feio. Aceitou e se deixou levar. O casal elegante não errou o passo. Deslizavam sobre um solo enfeitiçado enquanto que a música sublime os levava rio acima, rio abaixo. Ele lhe sussurrava palavras doces e mostrava o contentamento em tê-la nos braços. O magiar era de fato muito bonito. Seu cabelo grisalho brilhava a luz da lua e seus olhos, profundamente azuis eram da cor do mar Mediterrâneo. E dançavam e dançavam. Venha me visitar, vou ter muito gosto em recebê-lo, e vou cuidar para que não seja esfaqueado de novo.

            Completa o circuito ruínas indo a Herculano, bem próximo de Pompeia e que foi mais poupado que a vizinha, embora os gazes do Vesúvio também a tenham destruído bastante.  Herculano não tinha a importância econômica nem social de Pompeia, mas me  encanto com o que encontro, bem preservado e cuidado. É muito bonita.
            Compro alguns presentes e me presenteio com um azulejo pintado onde está presente a figura de um cão na coleira e as palavras: Cave Canem- cuidado com o cão. Vou colocá-lo na porta de entrada de minha casa.
            No dia seguinte, pego o trem para Sorrento.
            Sigo para a casa de Giulia.  Uma adorável casinha branca, lembrando as casas gregas, pequena e acolhedora. Conheci Giulia no Rio de Janeiro, na Lapa, numa noitada inesquecível. Nós duas, de porre, sentadas lado a lado numa mesa, entabulamos um papo sobre namorados, encontros e desencontros, vimos que tínhamos muito em comum, choramos juntas por amores perdidos, e pronto, foi o suficiente para nos tornamos amigas de infância, e isso já tem mais de duas décadas. Levei-a  para o meu apartamento e ela ficou lá até acabar o treinamento que veio fazer numa ONG com crianças carentes na Rocinha.
            A bela Costa Amalfitana me deixa extasiada. A brisa marítima me traz odores inesperados e reaviva emoções já esquecidas. Giulia dirige devagar pelas encostas dos penhascos. É um caminho tortuoso, tão deslumbrante que seguro o fôlego. Medo mesmo de despencar alguma hora.

            Almoçamos em Positano, um lugar muito chique, com hotéis e casas construídas nos penhascos, cheio de lojinhas com produtos artesanais muito procurados pelos turistas. Provo o licor de Limoncello, o ponto forte da região, que é delicioso, mais o chocolate, o torrone, tudo feito com ele. Os sabonetes artesanais também de limoncello, e de outros aromas, são sensacionais. Dá vontade de comê-los.

            Ela os vê chegar. Ela e todos que estão no restaurante. Parecem saídos do filme, ou do livro de Fitzgerald - The Great Gatsby. Lindos, seriam americanos? Alemães? Escandinavos? O homem, alourado,  cabelos rebeldes, alto, magro, pele levemente tostada, veste roupa de grife, em tons nude. São americanos, tenho certeza,  ela diz para a amiga, eles adoram esse tom de roupa, chique e despojado. Olhe a mulher. Ela não é tão alta quanto o marido (usavam aliança), loura e tostada levemente como ele, cabelos louros na altura do ombro, artisticamente desarrumados, segue o mesmo estilo. O casal, em atitude blasée, com o cardápio na mão, indiferente ao frisson que causaram com sua entrada, escolhem, sem pressa o que comer. São ricos, a amiga afirma, sem pestanejar. E bem nascidos, rebate a outra. É um à vontade que essa gente tem que me dá nos nervos, diz aquela, caindo na gargalhada. Sabe que não me vejo com um homem assim? Tá certa, pois ele nem ia olhar pra você. Nisso, o homem alourado, chique e rico, como não quer nada, passa rapidamente os olhos pelo salão, pelas duas moças que dele não lhe tiravam os olhos, e como estivesse  gravando uma cena, consciente  que está sendo observado, sorri monalisamente, e volta a olhar o cardápio. Sua mulher continua olhando o cardápio, também consciente que é profundamente observada. Em algum momento escolhem a comida. As duas amigas cansadas de observarem o casal,  viram suas cadeiras para o mar Mediterrâneo, tão azul, tão deslumbrantemente lindo, e se extasiam vendo ao longe um veleiro singrando os mares. Nápoles, vamos lá amanhã.

            Sorrento e Positano são cidades lindas, onde o melhor programa é andar e andar por suas ruas limpas e arborizadas. E comer bem, como fazemos, sem medo da balança. Giulia sugere  um lugar para ouvir música e dançar, o que concordo entusiasticamente.
            A boate do hotel fica num platô do penhasco. Como conseguem construir ali? Positano é cheio de sobes e desces. A vista para o Mediterrâneo como sempre me comove, e optamos por uma mesa colocada estrategicamente num ponto onde se descortina uma vista deslumbrante do mar azul petróleo ao mesmo tempo em que temos a visão do pequeno palco, da pista de dança e de quem chega. As pessoas começam a chegar. Uma tribo diversificada, bonita. A música instiga a turma jovem a dançar, mas a bebida rola primeiro, como a esquentar o combustível. Os mais velhos apenas bebem e observam. Mas, de uma hora para a outra, estão todos na pista, mexendo braços e pernas nem sempre em sintonia com o que ouvem, apenas pelo prazer de ouvir e sentir a música e se deixar levar.
            Acordamos de ressaca. O Pro Secco nos derrubou. Ao invés de ir a Nápoles, vamos à praia. O dia está quente, convidativo mesmo. Na sacola água, toalha e filtro solar. O trecho de praia é pequeno, a areia é escura, mas a água deslumbrantemente azul e limpa. E mais uma vez  abraço aquele mar com vontade e com braçadas vigorosas.

            Ela sentada à beira do mar, brincava com a areia molhada moldando vários objetos. Quando ele passou correndo ela admirou-lhe as belas pernas. De longe ele já tinha visto a moça de cabelos curtos e pensava num jeito de conhecê-la. Correu até o outro extremo da praia e voltou nadando. Saiu do mar bem na frente dela. Ela levou um susto, mas perante o sorriso do rapaz, desarmou e sorriu também. Ele era jogador de futebol e estava passando uns dias na casa da tia. Convidou-a para uma partida de cartas naquela tarde. Jogava buraco? Ela assentiu. Conheceu a tia e a irmã mais nova dele. Sentaram-se em volta da mesa. Num dado momento sentiu as pernas dele acariciando as suas. Enroscou as suas também nas dele e assim passaram algumas horas onde as pernas apaixonadas curtiram um amor fugaz.

            A viagem de barco de Sorrento a Nápoles é rápida. O barco grande abriga uma boa quantidade de turistas.  Compro a bordo uma linda bolsa praiana de plástico, listrada de azul e branco onde se lê: Capri, e que com certeza me remeteu a algum filme onde ela era usada pela atriz.  Estou ansiosa para conhecer a famosa Gruta Azul. Mas, ao chegarmos à Nápoles fico tão excitada com o que vejo que quero mais é andar, andar e andar. O Museu de Capri, onde tem tudo sobre Pompeia fica para outra oportunidade. Igual ao Castel Sant’ Angelo. Não dá pra ver tudo, me conformo, mas deixo uma porta aberta para nova visita. Como eu sempre digo, A Itália é sedutora, não tem jeito, é atávico,  queremos sempre voltar. O teleférico nos leva para a parte alta da ilha, cheia de lojas de grife. É um lugar sofisticado bem diferente do que via nos filmes italianos quando era criança. Ou quem sabe essa zona turística do porto, dos pescadores, foi parar em outro lugar? Esperava pela balburdia dessa gente, vendendo seu peixe, com Zizi Possi cantando Per Amore. Nada disso, elegância e sofisticação são o que encontro na ilha ao sul da Itália.

            A Itália é mesmo um país para se extasiar. É belíssima, suas regiões são deslumbrantes, há muito para ver e desfrutar. E mais uma vez  vamos de um lado para o outro, admirando a arquitetura do lugar, e tomando sorvete. Giulia ama seu país e tem um prazer enorme em compartilhar comigo o vasto conhecimento que tem de sua pátria. Escuto-a em enlevo. Almoçamos num restaurante que fica do lado oposto de uma loja Prada.  Não podemos comprar nada da grife, mas podemos comer muito bem. Escolhemos peixe num cardápio variado e o Chianti para acompanhar.
            No dia seguinte parto para Lucca. Inicia-se a etapa Toscana. Hospedo-me na casa de meu amigo Júlio casado com a encantadora Michela.
            Júlio é escritor e foi namorado de minha irmã no início da adolescência de ambos. Gostava de literatura e escrevia poemas apaixonados para ela. Era um conto aqui, um poema acolá, e foi acumulando prêmios. Ganhou uma bolsa literária para a Itália, publicou o primeiro livro, sucesso de crítica e as oportunidades foram chegando. Graduou-se na universidade local, fez mestrado e doutorado em literatura brasileira e por um período voltou ao Brasil, mas retornou mais cedo do que esperava e se convenceu que sua pátria agora era a Itália. Casou-se com uma toscana, teve um filho e anos depois de divorciou. Conheceu outra italiana e teve uma filha, Beatrice, mas se separou novamente. Sofreu um baque com essa separação, ficou doente, precisou ser internado e no hospital conheceu outra mulher, essa sim, um diferencial na sua conturbada vida emocional. Michela é enfermeira e praticante de yoga. Apaixonaram-se e estão morando juntos. A saúde de Júlio inspira cuidados e  Michela está atenta e cuida com devoção do seu amor brasileiro. Júlio apresenta alguma melhora  e está feliz com a presença dela a seu lado.
            Os reencontros de amigos que se querem bem são sempre festivos. Muitas coisas para contar, outras tantas para ouvir, passaram a noite bebendo vinho, comendo e relembrando histórias.
            No dia seguinte, Júlio me chama para uma conversa. Comunica-me que tem apenas um ou dois meses de vida. Um câncer de pâncreas se instalou no seu organismo e devora cada célula sua com apetite avassalador. Fala com naturalidade, aparentemente não está assustado, apenas ciente do fato. Quem desaba sou eu. O fato é totalmente inesperado. As lágrimas caem em profusão e não sei o que dizer. Michela vem em meu socorro e me assegura que Júlio está bem assistido, ciente da sua finitude, encarada com naturalidade e que tudo corre conforme seu desejo.
            Essa revelação interfere no meu sono, custo a dormir. Olhos arregalados respiração acelerada, viro e me reviro na cama. A presença da morte ali, naquela casa me deixa angustiada. Penso em ir para um hotel, mas só em pensar em deixar a casa de meu amigo, que se mobilizou para me receber, desisto. Júlio mostra uma força descomunal perante a sua iminente partida, e quero beber dessa fonte. Saber que se vai partir com tanta lucidez, a morte anunciada a qualquer momento – o médico disse um, dois meses? - requer, não resta a menor dúvida, entendimento total da vida. Talvez  deva ficar mesmo. E ele está feliz com a minha presença.
            A agenda para a Toscana é tranquila. Tenho um esquema pronto e o sigo a risca. Nos dois primeiros dias exploro a bela cidade medieval cercada por um muro onde há um parque enorme em volta, bem no alto. Adoro passar pelas grandes portas e entrar nesta parte histórica e preservada, onde estão os hotéis, restaurantes e um comércio ativo excelente. Pode-se comprar bem, sem a exorbitância dos preços similares no Brasil. Poucos carros circulam dentro desta área. Quem mora lá  é muito rico, o metro quadrado é muitíssimo caro, disse-me Júlio. Dou risada, se ele soubesse dos preços escorchantes dos imóveis na zona sul do Rio de Janeiro era capaz de achar que caro era no Rio de Janeiro, não em Lucca.
            Passeio pelas ruelas olhando para o alto, para os lados, quero captar tudo que vejo. Visito as igrejas, o anfiteatro e chego à casa de Puccini, filho da região. O guia é um italiano simpático, Guido, que arrisca algumas palavras em português e flerta discretamente comigo. Correspondo, por que não? Sou a única turista a visitar a casa. Nem por isso o entusiasmo dele é menor. Adoro o maestro, tive uma poddle toy a quem chamei de Manon Lescot em homenagem a ópera da qual tanto gosto. Estou feliz por estar ali e vasculho tudo com cuidado. Guido me diz que há apenas uma descendente de Puccini, Simonetta, hoje com avançados oitenta e tal anos.
            Hora de almoço, Guido me convida para um lanche no parque.

            Acontece em Lucca uma feira de produtos da região. São várias tendas com tudo o que se pode imaginar: pães diversos e de vários formatos, queijos de toda a espécie (provei pelo menos uns 5); marzipan; torrones mórbidos( mórbido ao contrário do que o nome indica em português, significa macio) fáceis de mastigar e fantasticamente deliciosos; biscoitos; chocolates, vinhos; pães, embutidos, um fartar. Compramos vinho, pães, presunto de Parma, salame, queijo pecorino e de cabra.
            É uma semana atípica para o mês, aliás, está bastante quente na Itália. Levamos nosso farnel e nos estiramos na grama. Por alguns minutos deixamos que o sol beije nossos rostos. Guido abre o Chianti enquanto preparo os sanduíches. Tudo é muito saboroso. Nunca tinha provado queijo peccorino, porque é caro no Brasil, mas na Itália foi o que mais comi. O parque é muito cuidado, seguro, e me dá uma vontade irresistível de não voltar para o meu país tão cedo. O que faz um homem bonito e uma cidade encantadora!!
            A mulher sente a grama a lhe fazer cócegas nas costas. O homem, bem mais jovem, lhe beija a boca com reverência e lhe chama de “carina.” Ela adora o som da língua italiana, para ela uma  melodia sem fim. Quer que ele não pare de lhe sussurrar palavras doces. Ele obedece, enquanto acaricia o corpo dela com vagar. A mão dele é macia, e ela experimenta um orgasmo. Agora ele a beija com paixão, e ali, na grama, os dois amantes se amam, sem pressa, sem cobrança.

            Não acredito no que meus olhos teimam em ver. Laura, não pode ser, é você mesmo? E abraço a amiga querida, que já não vejo há algum tempo. Sou eu mesma, poxa se a gente tivesse combinado de se encontrar aqui, talvez não desse tão certo! Laura viaja constantemente à Itália por conta da irmã, artista plástica que mora em Florença. Ela aguarda a chegada de sua amiga francesa,  Thérèse, que pela hora já deve ter desembarcado em Florença e seguido para a casa de Mariângela, a irmã de Laura.  As duas planejam alugar um carro e se perder nas estradas toscanas até Siena. É época de vindima e há alguns lugares onde se oferece degustação de vinho seguido de almoço, geralmente uma massa caseira. Ofereço-me imediatamente para ser a terceira passageira e combinamos o passeio para dali a dois dias.
            Ao cair da tarde, seguindo o conselho de Guido, vamos assistir a um recital de peças de Puccini, numa igreja dessacralizada, San Giovanni, cuja importância se deve ao próprio compositor, que costumava tocar durante as missas. Os recitais são mantidos por iniciativa privada (Puccini  e La Sua Lucca Festival) motivo de orgulho do apresentador e são realizados todos os dias do ano. Todos os dias do ano, pasmem!  E o nosso Teatro Municipal com uma programação pífia, que não chega nem aos pés de Puccini e La Sua Lucca.  A entrada custa 20 euros no primeiro dia e tem-se direito a abatimento no outro. Júlio e Michela se juntam a nós, e depois de uma hora e meia de puro deleite, saímos para jantar.
            Laura lê bastante, escreve bem, tem contos publicados e a conversa flui gostosamente. Falamos de literatura, música, da comida italiana e as horas passam voando. Escuto Júlio falar de literatura com tal paixão que fico comovida ao mesmo tempo em que sinto uma pontada no coração. Ele tem pouco mais de um mês de vida, e está falante, exuberante, segura a mão de Michela, conduz a conversa, como pode uma vida acabar assim?
            Sem olhar o relógio, porém sentindo o cansaço tomar conta de seu corpo, Laura despede-se, não sem antes dizer, Te espero para irmos à Siena, dirigindo-se a mim.
            Voltamos a pé para casa. Passamos por uma das portas medievais para seguir para a parte moderna de Lucca, onde mora a maioria das pessoas. Durante o percurso, é tarde da noite,  estou apreensiva, o silêncio urbano me deixa inquieta e há poucas pessoas na rua. Olho assustada para os lados, qualquer ruído me deixa sobressaltada, e sou tranquilizada pelo casal. Não existe violência por aqui e muito menos assalto a transeuntes, relaxa. Vocês são felizes e não sabem, porque a minha visão de cidade legal para se morar é exatamente essa: a cidade onde não vou ser assaltada ou morta, e infelizmente não vivencio isso no lugar onde moro.           
            Folga de Guido, ele passa cedo para me levar para conhecer Pisa, e as pequenas cidades no entorno. A estrada é ótima, e o tempo está ensolarado. Guido cantarola canzones italianas que conheço e canhestramente entro num dueto com ele. Sentamos num café antes de andar até a torre. Carros não entram em qualquer cidade histórica. Muito bom isso. Quando avisto a Torre me emociono, estou à frente de um  monumento que conheço desde que nasci. A mesma emoção quando vi a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade.  É uma emoção única e extremamente particular, o reconhecimento de algo que sempre se conheceu, através de fotos, da história e que sempre esteve no nosso imaginário, sem, no entanto nunca ter estado frente a frente com o monumento.

 A Torre tinha sido lavada meses antes, e o branco original estava espetacularmente alvo,  fato esse que realçava sua bela arquitetura. Ela começou a inclinar-se para o sudoeste devido a uma fundação mal construída, e permaneceu séculos assim, inacabada – a construção se iniciou em 1173. Quando constataram que o que estava construído não desabou, voltaram a edificar de onde pararam.  Na praça onde ela está erguida, visita-se também a catedral e o batistério. Na catedral tem uma funcionária de plantão que emite belos sons para que os turistas percebam a acústica extraordinária do local. E é em reverência profunda que todos escutam por segundos o som reverberando pelo salão.
            No dia seguinte vou para Florença, para me encontrar com Laura. No caminho passo por uma locadora e pergunto o preço do aluguel de um carro por um dia. Se dividirmos por três fica bem razoável. Chego com os preços, o tipo de carro e mostro pra ela. Vamos mesmo de carro? Eu dirijo. A ideia é fazer o passeio até Siena, parando em  San Gimignano, que também é uma cidade medieval e conhecida como a cidade das torres.
            San Gimignano é uma beleza. Chegou a ter 72 torres, mas hoje restam 14 e de acordo com as informações locais muitas delas usadas como moradia. Há muitas lojinhas de artesanato e várias gelaterias, um verdadeiro tesouro italiano, e estou sempre saboreando um. Laura e Thérèse compram muito, tudo que a vista e o bolso alcançam. Eu já sou mais moderada e custo a decidir se quero mesmo comprar alguma coisa. Mas, nem pestanejei ao ver o lançamento dos óculos da Gucci. Não comprei imediatamente, é verdade, mas ao final do terceiro dia não resisti. Foi colocá-lo no rosto e pagar.
            Na hora de forrar a barriga, seguimos para um vinhedo previamente reservado, onde a degustação do Chianti é seguida por um almoço. É bem perto de San Gimignano e a viagem é deliciosa. Dirigir pela Toscana é passeio para nunca mais ser esquecido. Vejo na minha frente o que vi em filmes tantas vezes: a paisagem deslumbrante do lugar.
Estamos contentes por estarmos juntas, por estarmos num lugar lindo e Thérèse arrisca algumas palavras em português aprendidas com canções cantadas por intérpretes brasileiros. Ela diz que há um barzinho em Paris onde mensalmente um cantor brasileiro se apresenta.

                   
   O almoço servido é uma massa bem feita, e o Chianti servido é dos deuses, infinitamente melhor do que a comida. A dona do local - cozinheira? chef? - ensina como degustar o vinho, rodando a taça, tampando-a com a mão por alguns segundos, levar o nariz à borda da taça, cheirar levemente, e então tomar um gole. Uma cena ensaiada,  todavia divertida. A nota triste foi o comentário dela dizendo que qualquer pessoa ali poderia comprar os vinhos que eles embalavam e mandavam por navio, sem nenhum custo extra. A única restrição era para Brasil e Argentina, porque a alfândega de ambos os países exigia propina alta demais e não compensava. Laura e eu quisemos nos enfiar embaixo da mesa de tanta vergonha, havia pessoas de várias nacionalidades no vinhedo e ouvir sobre a corrupção brasileira em alto e bom som não foi uma boa experiência. Embora o nível de corrupção na Itália e no Brasil seja equivalente.
           
            O centro histórico de Siena é impressionante. Os prédios são monumentais, e impressiona, a nós brasileiros, o cuidado e a limpeza ao redor.
            Na volta, hospedo-me  na casa de Mariângela, e ficamos alguns dias juntas. Visitamos os museus, as igrejas e na Piazza Michelangelo tiramos várias fotos. O local é privilegiado e ótimo para se ter uma boa panorâmica da cidade.

            Florença é uma cidade elegante, bela e fácil de andar. Na Igreja Santa Maria de La Croce pedimos uma visita guiada, grátis, e tivemos uma aula de cultura ímpar. O guia, casado com uma brasileira, dá um show,  tem visível prazer naquilo que faz e nós nos extasiamos com a vasta extensão de seu conhecimento.  Lá estão entre outros os túmulos de Galileu, de Dante, de Machiavelli e outros que esqueci agora. Não há como não se emocionar. Saímos dali sabendo tudo sobre a dinastia dos Medici, riquíssimos, amigos das artes, grandes incentivadores e grandes compradores da arte italiana. Tudo ali tem o dedão deles. Êta família poderosa essa. Diferente do Médici brasileiro, de triste memória.
            As barracas de frutas vendem  pêssegos, ameixas e caquis deliciosos e enormes. A suculência das frutas me deixa intrigada. Por que no Brasil, principalmente pêssegos e ameixas são tão minúsculos e sem sabor? O caqui também é diferente dos nossos, de coloração diversa e muito saboroso. Tive também a oportunidade de comprar tâmaras, enormes, maravilhosas, que só tinha comido no Líbano. As que vêm para o Brasil são minúsculas, mas caroço do que a fruta.
            Laura e Thérèse viajam para a Croácia em dois dias. Tentam  me convencer a ir também, mas não dá. Tenho  mais dois dias em Lucca e depois sigo para a Áustria.
            Lucca realmente é um lugar apaixonante. Ando de bicicleta, me estiro na grama do parque, e aproveito bastante bem as horas com Guido. Ele é bem mais novo que eu, pouco importa, o carinho e o sexo entre nós são revigorantes, por isso quero desfrutar o máximo.
            Bisbilhoto cada cantinho da parte histórica, me estendo na grama do parque, ando de bicicleta e como muito bem. Pra quê mais? Piero, por onde andará? Nunca soube seu sobrenome. Como pude amar alguém sem saber o seu sobrenome?
            No último domingo na cidade, vejo uma movimentação grande de gente e barracas sendo  montadas. É uma feira de antiguidades, espetacular. Vendem tudo que se possa imaginar e por preços bem accessíveis. Mas, não compro nada.
            A noite de despedida entre Guido e eu é alegre, Como foi bom estar com você, ragazzo. Adio carina. Adio Italia, parto para Viena. Lá vou eu.
            O Euro night me leva para Viena, e mais uma vez me pergunto por que não existe ferrovia como essa no Brasil. O atraso do país fica flagrante na modernidade do transporte urbano no exterior. Um amigo me disse convicto, ferrovia no Brasil? Ia ser um tal de roubar dormentes que o governo teria que desistir.  E é verdade, até fios elétricos a turma rouba!!!  O mistério das vigas da Perimetral persiste e vai cair no esquecimento. Ninguém vai descobrir, e vai ficar por isso mesmo. As coisas são assim no Brasil. O povo não cobra, não se mobiliza para cobrar respostas. E tem também o estrago que fazem com as estátuas. Há muito vandalismo no país, e pouquíssimo respeito aos monumentos. Tem uma turma que nem sabe o que respeito significa. Nós só mudaremos o que não gostamos no país se mudarmos de atitude e pensamento.
            Durmo a maior parte do tempo, acordo quando entra o fiscal para pedir-me a passagem. Ao amanhecer já estou em Viena. Olho pela janela e vejo lindas pastagens. A temperatura está baixa, tremo de frio e rapidamente visto o casaco.
            A primeira impressão é de uma cidade limpa e organizada. Pego um táxi e fico encantada com a atitude do motorista em relação ao trânsito. Como na Itália, ninguém acelera nas vias. A velocidade é em média de 50km, vejo ciclistas trafegando junto aos carros e motociclistas sendo respeitados e se fazendo respeitar. Nada de ciclovias, o que me faz refletir em relação ao gosto de construir ciclovias no Brasil. Será que é mais fácil construí-las do que educar o povo para dirigir civilizadamente? Gosto de correr, e tenho certeza que depois dessa viagem vou dirigir mais devagar. É preciso.

            Dirigia em alta velocidade quando passou de raspão pelo motociclista. Pelo retrovisor se certificou que estava tudo bem com o rapaz, que deu uma guinada para não ser atingido pelo carro. O motoqueiro parou  e aproveitou para xingar todos os descendentes do motorista, que ele não sabia se era homem ou mulher, devido a película escura dos vidros. E a mulher continuou voando pela larga avenida. Só sabia dirigir assim, desafiando as leis do trânsito e do bom senso. Pouco ligava para as regras, elas eram para os outros. Seu carrão, de mais de cem mil reais atestava seu ótimo padrão de vida, mais uma razão para ela se sentir acima do bem e do mal.
            O piloto da moto precisava se vingar daquele bólido humano com sua besta motorizada. Mais um pouco e ele estaria estirado na calçada. Nenhum guarda municipal, nenhuma viatura policial, nenhum radar e ficamos todos à mercê dessas imprudências. Brasileiro dirige mal, e gosta de correr. É o espírito de Airton Sena encarnado em cada um de nós. Resolveu fazer justiça com as próprias mãos.
            Ela começou a se preocupar com a presença constante do motociclista na cola de seu carro. Qualquer manobra que fazia, o rapaz fazia também. A preocupação deu lugar ao medo, ao pânico. Essa cara vai me matar. E corria mais ainda, e pouco adiantava. De uma hora para a outra reviu sua vida. Tinha certeza do pior. Totalmente tomada pelo pânico teve uma ideia suicida. Vou jogar o carro em cima dele, e acabar com isso. Tarefa difícil, porque a moto se mantinha atrás do seu veículo. Passavam-se os quilômetros e a situação se mantinha inalterável. Suas mãos suavam e deslizavam pelo volante, embora o ar refrigerado estivesse no máximo. Mais adiante ela viu a longa fila de carros. Merda de congestionamento, agora não tem jeito, este homem vai acabar comigo.
            Diminuiu a marcha e se preparou para o pior. O rapaz se abaixou e pegou uma pedra enorme de um canteiro de obras. Ele vai arremessar essa pedra, que vai bater na minha cabeça, vou morrer, é o fim. Gelada e suando ao mesmo tempo ela esperou o desenlace final.
            Não esperou muito tempo. A pedra veio zunindo e acabou com o vidro traseiro do seu carro. O motociclista passou por ela, e ziquezaqueando pelos outros carros se safou do congestionamento.
            Ela olhou o vidro, aliviada, Amanhã compro outro.

            Meu hotel em Viena é na Ungargasse 38, Stephanushaus, um hotel simples, administrado por religiosas com um café da manhã bom, aliado a um quarto simples, limpo e com bom wi fi. Viena, como todas as cidades europeias é bem fácil de locomoção. O metrô é perto do hotel, mas até entender como as linhas funcionavam, levei um bom tempo. Depois que aprendi, pegava o metrô o tempo todo.
             A Stephansplatz que é um quarteirão badalado fica perto do Stephanushaus, dá para ir a é ou pegar o metrô – exatamente três paradas, super-rápido. E dali para a Graben, é um pulo. A Graben é uma rua cheia de lojas chiques, cafés e restaurantes, e suas origens datam do século XIII.  Passo pela bela igreja de São Pedro, em estilo barroco, mas não entro para visitar. Como sempre faço, quando chego a um a cidade, ando muito, e assim vou apreendendo  um pouco do lugar, observando seu povo e admirando o que está em volta. Temo que não tenha tempo para ver tudo,  é final de viagem e estou exausta. Prometo para mim mesma que vou voltar e ficar pelo menos 10 dias aqui. 
            Viena é lindíssima, organizada, limpa e não tem barulho urbano. Os carros se locomovem de maneira silenciosa, as motos não usam motor de escape e os ônibus trafegam sem estresse. No metrô as pessoas se comportam de maneira educada, não há empurrão para entrar ou descer do vagão, e quando conversam é em voz baixa. E ainda usam tablets sem ser incomodados ou roubados. Um homem louro, jovem grande e lindo está a minha frente entretido com seu tablet. Admiro-lhe a exuberância física natural, e imediatamente lhe coloco como personagem de The Sound of Music. Claro, que não lhe tiro os olhos de cima, mas estou de óculos escuros. Posso dizer que ele é fruto nativo desta terra. Que fome! Escondo minha curiosidade terceiro - mundista atrás do meu Gucci. Como me agrada  o comportamento civilizado desse povo.  Depois da exuberância italiana, é bom estar na Áustria, educada e organizada.
            Homens e mulheres usam bicicleta para se locomover. Vi isso também na Itália. Acho graça ao ver mulheres bem vestidas, de saltos altos e casacão pedalando suas magrelas no meio do trânsito intenso. Quando chove, um providencial guarda-chuva preso no guidão, protege os ciclistas da chuva. 
            A temperatura em Viena desaba no dia seguinte. Despenca uns 10º, o que me deixa eufórica, adoro frio, mas não levei roupas apropriadas. Antes de viajar verifiquei as temperaturas em todos os lugares que ia visitar, e esperava encontrar em Viena temperatura em torno de 17º. Foi o que estava marcando no primeiro dia que cheguei. Mas, houve uma mudança súbita e o termômetro caiu para 8º. Muito frio. Trouxe na bagagem roupas íntimas que aquecem, mas não são suficientes, e ainda por cima chove intermitente o dia inteiro e em todos os dias que fico na cidade. Passo um sufoco, mas não deixo de passear, nada me impede. Visito o museu Albertina que exibe uma mostra que inclui os cubistas e os impressionistas franceses, além de Miró, o surrealista catalão que adoro e Maigret. O museu é lindo e numa das salas um grupo de sete crianças escuta - como podem ficar tão quietos? - o que a professora fala. Um lourinho lindo de resplandecentes olhos claros olha em volta curioso sem prestar muita atenção à aula cultural, eventualmente volta a se concentrar.
            A exposição de Vick Muniz enche o andar superior do MAM, no Rio de Janeiro. O público é pequeno, mas ao subir as escadas, a mulher se depara com vários estudantes fazendo a maior algazarra: correm de um lado para o outro, deslizam pelo chão, se jogam no chão e falam, falam alto em total desrespeito para com os outros visitantes. A mulher está assombrada. Que país é esse? Os professores conversam entre si, indiferentes a balbúrdia dos estudantes em local totalmente inadequado, ninguém para orientar, exigir disciplina afinal não se está na praia. É fundamental aprender a se comportar em público, o que os brasileiros, de maneira geral, não sabem. A mulher não vai a nenhuma exposição no Rio de Janeiro, desistiu.

            O Museu Albertina é muito bonito, de mármore branco com umas escadarias impressionantes. Tudo lá é elegante e funcional.
            Ao sair do museu, bem em frente, do lado oposto, avisto o café Mozart, chique com garçons quase arrogantes, eu diria. Deleito-me com o apfelstrudel, tão diferente do que é feito no Brasil. Fico um tempo ali, verificando as mensagens no meu celular, olhando em volta, e pensando nos próximos passos. Não penso muito, volto a pé para o hotel e vou jantar no Akiko, um restaurante japonês e que me foi altamente recomendado. Exausta, retorno ao hotel.
            O dia amanhece cinzento e a chuva cai forte. Deduzo que lá fora deve estar gelando. Tiro da mala o par de botas emborrachadas, compradas em Lucca e visto minhas roupas térmicas. O guarda-chuva, made in china está todo torto, mas serve pro gasto. Na rota das minhas visitas o museu Schönbrunn e quem sabe o museu da Sissi. A chuva atrapalha e o frio excessivo também, mas sigo em frente no meu propósito.
Olho o mapa e não entendo nada, peço informação, pego o metrô, salto no meu destino e agora? Totalmente perdida, olho pra todos os lados, quem tem boca  vai a Roma, estou no caminho certo,  sim, é logo ali, e eureca, era mesmo. Os austríacos são muito civilizados, falam um belo inglês como sorriem a cada informação que peço. Avisto de longe o magnífico palácio. Ah que lindo, vale o esforço.
            De onde estou até o Palácio é um pulo, mas o vento realmente entra pela minha roupa pouco apropriada para a ocasião, apesar de estar protegida, de certa maneira, pelas roupas térmicas que uso embaixo do suéter e do casaco de tweed. A boina também protege minhas orelhas enregeladas. Tudo tem o outro lado da moeda, ao pensar no calor escaldante do Rio de Janeiro no verão, acho que essa temperatura – de 8º acima de zero não é tão ruim assim. Se estivesse com as minhas botas, e o meu casaco forrado me sentiria confortável. O que não é o caso. Tento esquecer o frio, vou em frente e logo chego ao palácio. Muitos turistas, mas nem se compara com os da Itália. Bem menos.

 O vento cortante entorta mais um pouco o guarda-chuva made in China, tremo um pouco mais de frio, compro o ingresso e entro. Admiro o entorno, mas não me atrevo a ir mais longe, o tempo está inclemente. Antes de entrar para a visita, passo pela cafeteria. Preciso me esquentar. Tomo um super chocolate quente e me delicio, sem nenhuma culpa, com uma especialidade da terra: Sacher tarte. Que coisa é essa? Acho que o problema está no nosso trigo, os doces daqui não pesam no estômago. Como com prazer inusitado, o doce derrete na boca de tão bom, não me importo nem um pouco com as calorias extras, sei que vão me aquecer desse frio. Desculpa boa essa, não é?
            O palácio conhecido como o Versalhes de Viena tem 1440 aposentos e foi residência oficial da dinastia dos Habsburg que dominou grande parte da Europa por mais de 600 anos. Foi nesse palácio que Francisco José conheceu sua prima Isabel, ou Elizabeth, de 16 anos mais conhecida por Sissi. Ele ia se casar com sua irmã mais velha, Helena, mas quando pôs os olhos na linda priminha, exuberante, linda e risonha, decidiu que era com ela que ia constituir família.

            Ela chegou da universidade e ouviu vozes na sala. Deixou os livros na mesinha do corredor, ajeitou os cabelos no espelho que encimava a mesinha do hall, e foi para a sala assuntar com quem a mãe conversava. O homem, sentado no sofá, vira-se para ela e seus olhos se amaram antes de trocarem as primeiras palavras. Seu primo sulista pela primeira vez no Rio de Janeiro. Ele se levantou e a beijou. Um beijo molhado no rosto. Ela se sentou ao lado dele e ele se ajeitou no sofá. Conversaram bobagens, enquanto os olhos diziam tantas outras coisas. Outros tipos de bobagem. Ele ia ficar apenas aquele dia na cidade e ela o convidou para dançar. Gosta de dançar? Sim, claro. Combinaram que ela o pegaria no hotel. Ela passou o dia nas nuvens.
            Dançaram, beijaram-se, um à vontade um com o outro como ela nunca vivenciou com nenhum outro.
            Ele foi embora sem se despedir.
            A prima soube que ele estava de casamento marcado. Casou-se em alguns meses, tiveram vários filhos, a primeira filha recebeu o nome da prima. Nunca mais se encontraram, nunca se esqueceram.

            A visita ao palácio rende o dia inteiro. Visito tantas salas que no fim já não me lembro do que tinha visto no início. Vejo uma pintura com a imperatriz Leopoldina, criança, junto de Maria Antonieta. Pobres moças, a primeira casou com D. Pedro, coitada, e a segunda morreu decapitada.
            Dentro do Palácio sinto muito calor e as roupas térmicas me incomodam. Não me sinto confortável naquele abafamento todo e esse desconforto atrapalha a minha atenção. Tem bastante gente e me impressiono com a ordem, o silêncio e a disciplina. Os autofones são ótimos e escuto em espanhol.
            Replanejo a visita ao palácio da Sissi para o dia seguinte.
            Reservo o final do dia para um drink em um lugar bacana. Encontro esse lugar por acaso.  A livraria é pequena, e surpreendo-me com a quantidade de gente jovem bonita e bem vestida, sentados em semicírculo enquanto um pequeno conjunto toca rock. Acho que é rock. Gosto do som e entro. Sou, de longe, a pessoa mais velha no local. Não estou tão elegante quanto o público local, mas esse fato não me constrange. Ninguém me olha e muito menos está interessado no que visto.  O lugar é acolhedor, com um design arrojado que valoriza o espaço. Dirijo-me ao balcão da pequena cafeteria e peço uma taça de vinho tinto quente. Sorvo a bebida calmamente, que exala um aroma sedutor,  quando escuto: Portuguesa ou italiana? Brasileira. Ele é português, economista e mora em Viena. Adora o Brasil, sabe tudo que está acontecendo no país, aplaude a política vigente e o partido que governa o país. Quer saber o que acho, mas o fato é que este assunto me provoca tédio, irritação e não estou a fim de falar de política. Como ele não mora no Brasil tem uma ideia romantizada do que acontece aqui, o que também me aborrece. Em 10 minutos de conversa, peço licença e me afasto. Sento-me numa cadeira vaga perto do tablado onde os músicos se exibem. Olho com interesse para o saxofonista, mas ele está tão concentrado na sua música, que mantém os olhos fechados. Quando os abre pisca para a bela moça de piercing no nariz e de cabelos amarronzados, sentada de frente para ele. E é correspondido.

            Encontraram-se na porta do teatro. Beijaram-se, ele elogiou seu vestido, e de mãos dadas entraram plateia adentro. Sentaram-se e  logo as três pancadas de Molière avisaram que a peça estava prestes a começar. Entra esbaforido um homem, dos seus 35 anos, de paletó na mão, gravata desatada, colarinho aberto no peito. Senta-se ao lado dela. A partir daí nem ele nem ela viram a peça. Primeiro foi um pé que encontrou o outro, depois uma perna se enroscou na outra, a seguir os braços se roçaram, e uma vontade louca de fazerem amor ali mesmo. A tensão dos dois era visível, tão visível que o companheiro dela levantou-se antes do primeiro ato acabar e foi-se embora. Os dois continuaram nessa dança até a peça acabar. Quando acabou, levantaram-se, aplaudiram os atores, embora nem soubessem o que tinha acontecido no palco, não se olharam e quando ele pediu o telefone dela, ela medrou e saiu correndo do teatro. Achou que ele podia ser um maníaco sexual.

            O Palácio da Sissi fica bem perto do bairro judeu, que passo batida, vontade de parar e me perder por lá, mas o tempo é escasso e continua a chover e o frio parece que piorou.
            O palácio é deslumbrante. Reservaram a parte térrea para expor toda a louça imperial, que não é pouca. Peças belíssimas, muita prata, Cristal, copos, centenas de baixelas, pratos de porcelana de tudo que é tipo, tudo intacto e altamente preservado e sinceramente aquela fartura toda não me fez nada bem. Não resta dúvida que a dinastia dos Habsburg era poderosa e riquíssima. Ostentação é pouco para o que vi.
            Fotografo um centro de mesa, logo abaixo, todo de ouro e que vai de uma ponta à outra da grande mesa. Uma obra de arte, toda trabalhada em filigranas, e imagino o trabalhão para limpar e polir.

            A imperatriz foi uma mulher além de seu tempo. Vi sua foto. Era linda, alta, 1,70 e tal, magra e longilínea. Cuidava do corpo com obsessão, fazendo dieta rígida e se seu peso aumentasse (pesava-se todos os dias) fazia jejum. Seus cabelos eram longos com cumprimento quase à altura dos quadris. Escrevia poemas e parece que era dada a depressão. Não gostava da vida imperial, recusava-se a comparecer a algumas cerimônias protocolares, mas sua amistosa relação com os húngaros foi fundamental para o bem do império. Os magiares a adoravam.
            Seus aposentos incluíam sala de musculação, que me deixou surpresa, claro que não é como hoje,  mas o básico estava lá.  O que também revela muito da mulher. Teve um filho assassinado e pelo relato do autofone nunca se recuperou. Também ela teve um fim trágico. Foi morta por engano, não era a ela que o assassino visava, mas como o alvo não estava lá, ela foi o bode expiatório. É aquele caso: estava no lugar errado, na hora errada.
            Acordo no dia seguinte com a ideia fixa de visitar Salzburg, a terra de Mozart, hoje um grande empresário no ramo dos chocolates. Que dinheirama para os cofres austríacos tudo que envolve Mozart e Sissi!
            Do trem, avisto ao longe as montanhas de Salzburg. A paisagem é tão extraordinária quanto a da Toscana. A música chega devagar aos meus ouvidos,
            The hills are alive
            With the sound of music
e a bela voz de Julie Andrews também chega delicada aos meus ouvidos. Vejo-a subindo a montanha austríaca num cuidado cinematográfico inigualável. Sua voz vai tomando fôlego aos poucos e à medida que sua figura preenche toda a tela, ela abre os braços e canta a pleno pulmões a bela canção. Não foi a toa que o filme ganhou tantos prêmios e resiste na lembrança de tantos.  Lá está Salzburg, linda, nascendo com o sol.
            O fato de viajar sozinha me deixa muito em contato comigo mesma. Não tenho com quem conversar, não compartilho dessa imensa emoção que me toma quase que o tempo todo. O momento é muito sensível.  Recordo o tempo todo de pessoas que conheci durante minhas sucessivas viagens, os amores correspondidos, ou não,  e vou me dando conta da finitude da minha própria vida. O encontro com Júlio foi fundamental para isso. Nunca pensei na minha morte, mas começo a pensar, principalmente nessa viagem, tantas as lembranças do passado que faz com que perceba que já passei do meio do caminho. Muitos acertos, muitos desencontros e muitos encontros.
            Pego um tour e a guia mostra a Abadia no alto do morro, e as locações do filme tão famoso. E canto baixinho, dependendo da locação a canção correspondente.
            Visito a casa de Mozart, que conheço de cor, devido a um documentário que vira e mexe está na grade de um canal de TV a cabo. E compro chocolates, muitos, cadernos, pequenos presentes, tudo com a cara do grande compositor. Como são bons os chocolates aqui na Europa.
            A comida na Áustria é muito boa e cara, aliás, o país é caro para nós, brasileiros, mas pago com prazer. Folga na cozinha é bom pra qualquer um que faz sua própria comida, o que é o meu caso.
            Hora de voltar, a saudade de meus cachorros apertando, a necessidade de reestabelecer minha rotina, volto para Roma, para de lá voltar ao Brasil. Fico mais um dia na cidade colosso e visito as Catacumbas. Quero desfazer a primeira impressão que foi de horror. Dessa vez, vejo com imparcialidade as pequenas tumbas, e mais uma vez penso com tranquilidade sobre a morte. Tem jeito não, vamos todos um dia.
            Acordo cedo, pego um taxi direto para o aeroporto com a cidade as escuras. Quando vejo as horas no painel do carro estranho. O horário de verão tinha acabado um dia antes, e lá estava eu, mal dormida e ainda por cima uma hora adiantada.
            Horas na fila de check-in, acho tudo muito esquisito, e surpresa: OVERBOOKING, que até então só lia a respeito. Agora em cores e ao vivo sinto na carne o horror, o desrespeito e a hipocrisia dos funcionários inventando histórias que nem uma criança acreditaria, e  pior achando que você acreditaria.
            Dessa vez não volto pela empresa britânica e sim pela espanhola e é uma festa. A tripulação é madura (vejam só!), simpática, os assentos confortáveis com espaço para esticar as pernas ( ah, se o casal inglês soubesse disso!), o serviço ótimo, ganho até brinde e vem um pouco do jingle na cabeça, só algumas palavras:
            Iberia, Iberia, tuas asas potentes
            Tua tripulação sorridente
            Chega, chega, jingle não é comigo.
            Um mês depois chega a notícia da morte de Júlio.
            E um dia, a menina perguntou ao avô. Por que a gente morre? E ele respondeu de pronto: porque a pessoa se esquece de respirar. A menina levou anos de sua vida preocupada  com a sua respiração. Não podia se esquecer de respirar, porque se esquecesse, morria, e ela não queria morrer. Não naquele momento.
            Júlio se esqueceu de respirar.

Itaipava 2014/2015

Comentários

  1. Gostei muito do seu texto. Me senti transportado para a bela Itália. Amo Florença! Roma é um caso complicado, paixão e irritação misturadas - Foro Romano, Coliseu, Santa Maria Maggiore, o Panteon, Piazza Navona, San Pietro in Vincoli são os pontos altos. A gritaria insana, a grosseira dos garçons, o mau humor dos taxistas e das vendedoras de lojas, o trânsito caótico, Roma Termini assustadora, os batedores de carteira, os refugiados africanos ameaçadores são os defeitos mais visíveis. O Vaticano é outro lugar contraditório. Admiro a pompa e a beleza das construções e das obras de arte, mas tenho uma antipatia enorme pelo clero e pela soberba dos cardeais e dos clérigos em geral. Nápoli é ameaçadoramente atraente, Pompeia é a história viva nos seus belos afrescos e ruínas. Milão me agrada pela elegância e funcionalidade. Veneza é outro lugar de extremos: bela, antiga, parada no tempo, caríssima e com seus canais fétidos. O norte alpino, região do lagos di Garda e de Como é de uma beleza serena e poética. Enfim, a Itália é um país fascinante, terra dos meus ancestrais (avó paterna da província de Udine, e bisavó materna do Piemonte).

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    1. obrigada Ricardo, estava relendo agora, veja só, e realmente adoro, acho que fui muito feliz na inspiração.

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